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Revista Nippon e Niponica

Estudo da Língua Japonesa

Literatura

I. Literatura Clássica

Os mais antigos escritos são o Kojiki (Registro de Assuntos Antigos, uma coleção de contos descrevendo a criação do universo, bem como relatos de natureza histórica, como a fundação da nação japonesa, compilado por volta de 712 d.C.) e o Nihon Shoki (Crônicas do Japão, 720 d.C). Sem dúvida uma literatura oral surgiu antes desses livros, mas só depois que os japoneses dominaram a escrita chinesa, introduzida pela primeira vez no Japão no século seis depois de Cristo, é que os poemas tradicionais e lendas puderam ser preservados.

Os caracteres chineses foram usados, algumas vezes por seu significado, outras vezes apenas por seus sons, para registrar a poesia de Manyoshu (a chamada "miríade de folhas", também referida como uma "miríade de poemas", significando ao mesmo tempo uma antologia com a finalidade de ser passada às gerações "dezenas de milhares" de anos após sua elaboração, compilada por volta de 770 d.C.). Esta soberba antologia de 20 volumes contém cerca de 4.500 poemas criados por numerosos homens e mulheres de todos os estratos sociais, tanto jovens como idosos - de Imperadores e Imperatrizes a soldados de fronteira e humildes camponeses, muitos deles anônimos. Estes poemas foram baseados no estilo que utiliza versos de cinco e sete sílabas, com poemas mais longos escritos em versos de 5 , 7, 5, 7, 5, 7...7,7 sílabas, e poemas mais curtos escritos na forma de versos com 5, 7, 5, 7, 7 sílabas. Também incluía alguns poucos poemas compostos em outros estilos. Kakinomoto no Hitomaro (c.655-?) é amplamente considerado como o poeta representativo de Manyoshu. Seus choka (poemas longos) a respeito da morte de sua esposa e sobre temas patrióticos são repletos de uma rara intensidade. Outros poetas escreveram de maneira comovente sobre assuntos como a beleza da natureza, a procura de um lar, a tristeza da velhice, a pobreza, e, é claro, sobre o fim de casos amorosos ou a separação - de todos os tipos e geralmente sensíveis e repletos de paixão - sempre com uma forma direta e simplicidade arrojada, que contrastam com as reservadas sutilezas e técnicas retóricas de poetas posteriores.

A invenção, durante o século oito ou nove, do silabário Kana, que registra os sons do idioma japonês de maneira mais conveniente que os caracteres chineses, tornou possível a literatura característica do Período Heian(794 - 1192). O principal monumento poético desta era foi o Kokinshu(Coleção de Poesia Antiga e Moderna, 905), uma antologia composta de poemas no formato tanka(cinco versos de 5,7,5,7,e 7 sílabas). O tanka tornou-se a forma clássica dos versos japoneses, que ainda tem a preferência de muitos poetas da atualidade. Ao contrário do Manyoshu, os poetas do Kokinshu confinaram-se a uma gama relativamente pequena de assuntos, mas dentro desta gama eles se aproximaram da perfeição. A brevidade da forma tanka obrigou os poetas a recorrerem à sugestão como meio de expandir o conteúdo de seus versos, um artifício literário que tem sido característica da poesia japonesa desde então.

Ao Período Heian também pertence um dos mais conhecidos clássicos da literatura japonesa, o Genji Monogatari(A Historia de Genji, c. 1010), de autoria de uma dama da corte chamada Murasaki Shikibu. O trabalho de 54 volumes criado por esta sensível e introspectiva autora foi o primeiro grande romance do mundo. Ele descreveu o amor e a angústia dos nobres e de suas damas, dando ao leitor uma visão reveladora e deliciosa da vida elegante da sociedade aristocrática do Japão naquela época, bem como dos esplendores da cultura Heian,caracteristicamente japonesa e de seu esteticismo colorido por uma suave melancolia.

A vida diária da nobreza é vividamente descrita também no Makura no Soshi(O Livro do Travesseiro), uma brilhante coleção de ensaios num estilo que lembra os poemas em prosa, criado por outra talentosa e perspicaz dama da corte, Sei Shonagon (c.996-c. 1013). Mas suas vívidas observações são mais realistas, sensíveis e impressionantes, e demonstram mais humor. O Makura no Soshi é marcado por uma agudeza e sagacidade que dificilmente encontram rivais na literatura japonesa de períodos posteriores.

Muitos dos mais famosos trabalhos do Período Heian foram produzido por mulheres. Os homens tradicionalmente se ocupavam com o aprendizado sobre a então altamente avançada cultura chinesa, e preferiam escrever em chinês, da mesma forma que os europeus escreviam em latim, como prova de sua erudição. A tarefas de captar as glórias da época no idioma nativo e criar uma nova tradição literária foram assim deixadas às mulheres. Porém, os homens continuaram a escrever poesia em japonês, ainda que isto se devesse apenas ao fato de que um poema bem composto era a maneira mais rápida de conquistar o coração de uma mulher naqueles dias corte amorosa elegante.

As violentas agitações guerreiras que marcaram o final do Período Heian deram origem a uma série de romances históricos liderados pelo Heike Monogatari(A História de Heike, 1233). Á medida que o governo caía nas mãos dos aristocratas guerreiros o com o declínio do poder do Imperador de sua corte, o valente guerreiro samurai tomou o lugar do efeminado cortesão como herói da literatura, e a destruição deixada na esteira das batalhas emprestou em tom trágico a todos os escritos, com destaque para a efêmera natureza da vida humana e as vicissitudes do destino dos homens. Os escritores do Período Heian raramente olhavam para o passado, mas com o desaparecimento daquela cultura gloriosa, a nostalgia pelos tempos que se foram tornou-se um tema proeminente da literatura do Japão medieval.

A mais destacada coleção de versos desta fase é a Shin Kokinshu(contendo uns poucos trabalhos de poetas do final do Período Heian, sendo que o resto dos poemas era de autoria de poetas mais modernos), uma antologia imperial notável por sua expressão simbólica de delicadas emoções e sentimentos. É possível observar um traço nostálgico em Tsurezure Gusa(Ensaios sobre a Ociosidade, 1335), escrito por um monge budista, Yoshida Kenko(1282-1350), enquanto vivia em clausura.

Esta coleção de ensaios em dois volumes é freqüentemente comparada ao Makura no Soshi, mas o trabalho de Kenko é de uma natureza mais contemplativa, e seu tom é melancólico, resignado e estético. O autor aparentemente abandonou o mundo, mas ainda mantém um interesse em muitas das coisas da vida temporal. Seus ensaios líricos ensinam o prazer da vida de forma sutil, bem como a visão budista da transcendência de todas as coisas. Desde esta época, o Tsurezure Gusa tem tido uma grande influência sobre os escritos japonesa posteriores e sobre os ideais estéticos e de comportamento do povo japonês de maneira geral.

É possível descobrir o já mencionado traço nostálgico surgindo novamente nas peças de Noh dos séculos XIV e XV, onde o mundo evocado é geralmente aquele dos heróis mortos de alguns séculos anteriores. Estas peças, em particular aquelas de Zeami(1363-1443) são notáveis não apenas por sua força dramática de um simbolismo refinado, mas também por sua magnífica poesia, sugerindo os pontos mais altos que os poetas japoneses poderiam ter atingido caso não tivessem restringido a si mesmos ás formas de versos curtos.

O século XVI, um período de guerras entre senhores feudais rivais, produziu pouca literatura, mas, por volta do final do século XVII, ocorreu um grande renascimento literário, resultado dos anos iniciais do Período Tokugawa, que trouxeram a paz, a prosperidade para a classe dos mercadores e uma nova cultura plebéia. Ao contrário de escritos japoneses anteriores, onde prevalecia a aristocracia como assunto e estilo, tendo como objetivo o prazer de um pequeno círculo da classe ociosa, a nova literatura visava a classe mercantil, recém surgida.

Além de alguns trabalhos a respeito dos samurais com seu código de ética e lendas locais, os romances de Ilhara Saikaku(1642-1693), o maior escritor de ficção do Período Tokugawa(1603-1867), são repletos de aventuras de libertinos e cortesãs ou com as vicissitudes dos mercadores das principais cidades. Usando-os como assunto de seus romances, Saikaku retratou em seus trabalhos a vida das pessoas comuns das cidades, com realismo vivido e um estilo incisivo. Suas obras, revelando seu notável poder de observação aguda da humana e da sociedade na qual o autor viveu, são geralmente consideradas como precursoras dos romances realistas do Japão moderno, que surgiriam posteriormente.

Nas peças de Chikamatsu Monzaemon(1653-1724), freqüentemente apresentado como o maior dramaturgo japonês, assistentes de mercadores tomam o lugar dos generais como heróis, e seu trágico fim é resultado de suicídio com uma cortesã, em vez de ocorrer em algum nobre combate. A maioria das peças de Chikamatsu foi escrita para o teatro de bonecos, mas posteriormente elas foram adaptadas para o palco do Kabuki. Algumas de suas obras ainda são encenadas hoje e mais recentemente foram transformadas em filmes de grande sucesso. Ele escreveu também peças históricas, mas é mais conhecido principalmente por seus dramas domésticos sobre pessoas comuns das cidades, que combinam uma forte composição dramática e um diálogo narrativo eficaz e colorido.

Um terceiro importante desenvolvimento literário do final do século XVII foi a emergência do haiku, a forma mais curta da poesia do Japão, com três versos de 5,7 e 5 sílabas. Matsuo Basho(1614-1694) foi o maior dos poetas de haiku. Outros famosos poetas deste estilo nesta época incluem Yosano Buson(1716-1783) e Kobayashi Issa(1763-1827). O haihu ainda é tão popular nos dias de hoje que dezenas de revistas são totalmente dedicadas a esta forma de poesia, e os jornais apresentam colunas diárias de haiku. A maioria dos japoneses educados é capaz de escrever haikus com facilidade, embora naturalmente não seja nada fácil escrever um com a excelência de um profissional.

Estes importantes desenvolvimentos no romance, no drama e na poesia prosseguiram no século XVIII e nos primeiros anos do XIX. Porém, a falta de estimulo externo durante este período, quando o país esteve virtualmente isolado do resto do mundo, atrapalhou inevitavelmente os escritores japoneses. A introdução da influência ocidental após a Restauração Meiji em 1868 iria reviver a literatura japonesa, alterando-a de maneira marcante.

II. Literatura Moderna

A primeira tradução japonesa de um romance europeu surgiu em 1878. Na década seguinte, o número de traduções cresceu com rapidez, e os intelectuais descobriram que era possível, por exemplo, tratar de questões políticas e sociais em obras de ficção, e alguns autores destacados envolveram-se neste trabalho. Traduções de poesia européia começaram a surgir na década de 1880, e revelaram aos japoneses as possibilidades de expressão que eles até então desconheciam. O Japão de década de 1890 já era um país bastante diferente daquele que existira 40 anos antes, e seus escritores e poetas não poderiam permanecer igualmente fiéis às antigas tradições da literatura e á sua própria nova sociedade.

Alguns escritores mostraram dominar os novos estilos com rapidez impressionante. Em 1887-89, por exemplo, Futabatei Shimei(1864-1909) publicou Ukigumo(A Nuvem Levada pelo Vento), um romance ambicioso e progressista, que comentava com sarcasmo o conflito entre o persistente e profundamente enraizado pensamento feudalista remanescente da era do Japão dos samurais e as novas idéias aprendidas com as nações do Ocidente, a maneira pela qual a civilização japonesa estava sendo sacudida sob o impacto internacional e outros tópicos pertinentes.

Embora indubitavelmente influenciado pelos exemplos russos, é um trabalho de grande originalidade, que fielmente retrata o cenário japonês contemporâneo. Ele também se caracteriza por uma nova abordagem em termos de estilo.
A força total da nascente nova literatura japonesa surgiu na década que se seguiu à Guerra Russo-Japonesa (1904-1905). A vitória neste conflito talvez tenha por si própria inspirado nos japoneses a confiança necessária para a espantosa arrancada da atividade literária. Durante a década seguinte, Mori Ogai(1862-1922) e Natsume Soseki(1867-1916), celebrados como os dois maiores romancistas do período moderno no Japão(após a Era Meiji), publicaram muitas obras de grande qualidade. Outros autores destacados foram Shimazaki Toson(1872-1943), com excelentes poesias e romances, romancistas como Shiga Naoya(1883-1971), Tanizaki Junichiro( 1886-1965) e Akutagawa Ryunosuke(1892-1927), e poetas como Yosano Akiko(1878-1942), Ishikawa Takuboku(1886-1912) e Kitahara Hakushu(1885-1942).

III. Tendências Recentes

A literatura japonesa hoje está conquistando um número crescente de leitores fora do Japão, não apenas, como às vezes tem sido sugerido, por seu charme exótico, mas devido aos seus méritos universais. Os romances de escritores contemporâneos como Tanizaki Jun-ichiro, Kawabata Yasunari(1899-1972), Dazai Osamu(1909-1948), Inoue Yasushi(1907-) e Mishiima Yukio(1925-1970) têm atraído atenção e comentários favoráveis no exterior.

O romance de Mishima inititulado Kinkakuji(O Templo do Pavilhão Dourado), por exemplo, tem sido aclamado como um dos mais destacados romances japoneses dos anos recentes, não apenas por se basear num incidente sensacional e verídico de incêndio criminoso, contando a história de um jovem sacerdote enlouquecido que incendiou um celebrado templo em Quioto, mas por suas implicações psicológicas, sobre o tema de um jovem consciente acerca de si mesmo e de sua admiração pelas coisas belas, que se estende a pessoas de todo o mundo. Uma resenha a respeito do livro Ningen Shikkaku( Não Mais Humano), escrito por Dazai Osamu, afirma que a obra quase poderia ser de autoria de algum escritor americano, querendo com isso dizer que os problemas apresentados no livro não são os de um povo remoto, regido por tradições totalmente diferentes, como era o caso da maior parte da literatura mais antiga do Japão, mas sim de pessoas cujas vidas são de muitas formas semelhantes à do próprio crítico. Outros romancistas, como Kawabata, continuavam preferindo assuntos mais caracteristicamente japoneses, como o mundo da cerimônia do chá descrito em Semba-zuru(As Mil Garças). Mas o escritor japonês de nossos dias tem sido influenciado pela visa moderna e demonstra um interesse na psicologia de seus personagens que nenhum romancista japonês de um século atrás consideraria relevante à sua historia. O velho e o novo estão inseparavelmente misturados no romance japonês moderno, da mesma forma que ocorre na vida japonês moderna.

A poesia, os ensaios e as peças modernas têm partilhado as mesmas influências que os romances, embora não tenham reagido de forma tão rápida. Alguns poetas ainda hoje mantêm-se apegados às velhas formas e as preenchem com familiares (e muitas vezes adoráveis) descrições de paisagens da natureza cantadas por poetas ao longo do séculos, mas, cada vez mais, os poetas mais jovens têm expressado sua insatisfação com as tradições tão afastadas das duras realidades da vida moderna. O que é particularmente impressionante é a atividade igualmente grande entre os poetas de todas as idades. O teatro moderno também está obtendo nova popularidade, e algumas peças experimentais foram apresentadas a platéias no exterior. As Cinco Peças Modernas de Noh, escritas por Mishima, por exemplo, foram encenadas com sucesso em muitas partes da Europa e por grupos amadores nos Estados Unidos.

A literatura japonesa hoje é o produto da vida moderna como é vivida, com variações regionais, em outros países do mundo. Ela não mais representa uma tradição inteiramente independente como acontecia antes da introdução das influências literárias ocidentais. Em vez disso, a literatura japonesa agora tende a preocupar-se com problemas universais. Como parte da corrente mais ampla da literatura mundial, ela está ajudando a moldar, os gostos literários dos leitores espalhados por todo o mundo.

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